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OS RISCOS INVISÍVEIS DE NEGOCIAR UMA TRANSAÇÃO DE M&A POR CONTA PRÓPRIA
Vender uma empresa costuma ser uma experiência única para a maioria dos empresários. Comprar empresas, por outro lado, faz parte da rotina de grupos econômicos, investidores estratégicos e fundos de investimento. Essa assimetria de experiência faz com que boa parte do valor da transação seja preservada, ou perdida, durante a condução do processo, e não apenas na negociação do preço.
Exposição desnecessária
Todo processo de M&A começa pela confidencialidade. A divulgação prematura da intenção de venda pode gerar insegurança entre colaboradores, clientes, fornecedores e instituições financeiras. Também pode despertar o interesse de concorrentes e de compradores sem capacidade financeira ou sem real intenção de concluir uma aquisição.
Sem um processo estruturado, o empresário acaba participando de reuniões improdutivas, respondendo a questionamentos exploratórios e expondo informações estratégicas antes mesmo de existir oportunidade concreta. Preservar informações significa preservar valor.
Quando a negociação se torna pessoal
Sem um intermediário, toda negociação passa a ser direta entre comprador e vendedor. É nesse momento que a emoção ocupa um espaço que deveria pertencer à estratégia.
O comprador negocia um ativo. O empresário negocia parte da sua própria história. Essa diferença emocional, muitas vezes inconsciente, influencia a forma como cada lado percebe riscos, avalia concessões e reage durante a negociação.
A ansiedade natural da operação reduz a paciência para negociar, aumenta a pressão por respostas imediatas e dificulta algo essencial em qualquer negociação relevante: o direito de refletir antes de decidir. Nas empresas com mais de um sócio, esse ambiente ainda pode revelar divergências internas sobre preço, prazo, garantias ou condições da venda, enfraquecendo a posição do próprio vendedor.
A desigualdade raramente está apenas no preço
Em uma operação de M&A, a experiência também negocia. Na maioria das transações, o comprador chega acompanhado por profissionais especializados em aquisições, valuation, auditoria, modelagem financeira e negociação. O vendedor, por sua vez, normalmente participa da única venda de empresa de sua vida.
Essa diferença raramente aparece apenas no preço inicialmente oferecido. Ela costuma se manifestar nas cláusulas contratuais, alocação de riscos, declarações e garantias, mecanismos de ajustes e indenização e em inúmeras decisões que produzem efeitos econômicos muito depois da assinatura. Em M&A, quem negocia melhor nem sempre é quem fala melhor. Normalmente é quem conhece melhor o processo.
Outro efeito frequentemente negligenciado é a ausência de competição. Processos conduzidos diretamente entre vendedor e comprador tendem a evoluir como negociações exclusivas. Sem alternativas concretas, o poder de barganha do vendedor diminui e a pressão competitiva sobre o comprador praticamente desaparece. Em M&A, estimular a concorrência entre compradores costuma ser um dos fatores que mais contribuem para a maximização do valor da transação.
O preço continua sendo negociado depois do acordo
Chegar a um valor não significa que a negociação terminou. Entre o Signing e o Closing, diversos mecanismos podem alterar o preço originalmente negociado: caixa, endividamento líquido, capital de giro, ajustes contábeis, earn-outs e outras variáveis previstas nos documentos da operação.
Aliás, mesmo depois de definidos os mecanismos de ajuste, ainda permanece um aspecto frequentemente negligenciado: a discricionariedade inerente à aplicação dos princípios contábeis. Julgamentos, estimativas e interpretações tecnicamente defensáveis podem alterar indicadores financeiros utilizados nos ajustes de preço. Abordei esse tema em maior profundidade no artigo 'Venda de empresas, discricionariedade, estimativas, julgamentos e interpretações na aplicação do GAAP'. bit.ly/4eBf7N0
Uma negociação mal estruturada pode reduzir significativamente o valor econômico da transação sem que o preço anunciado tenha mudado um único centavo.
Quem administra a empresa enquanto ela está sendo vendida?
Uma transação de M&A consome meses de reuniões, diligências, negociações e tomada de decisões. Ao mesmo tempo, a empresa precisa continuar crescendo, atendendo clientes, gerando resultados e preservando justamente o ativo que está sendo negociado. Conciliar essas duas agendas costuma ser um dos maiores desafios do empresário.
Além disso, uma preparação insuficiente para a due diligence frequentemente revela problemas que poderiam ter sido antecipados antes de chegar ao comprador. Quanto mais tarde essas questões surgem, menor tende a ser o poder de negociação do vendedor.
Onde o valor realmente é preservado não é só na redação do contrato, mas durante a condução da transação
Ainda existe a percepção de que basta negociar diretamente com o comprador e contratar um advogado quando chegar o momento de elaborar os contratos. Essa visão simplifica excessivamente uma operação de M&A.
O advogado desempenha papel essencial na estrutura jurídica da transação. Mas a gestão do processo envolve outras competências igualmente relevantes: preparar a empresa, definir a estratégia da venda, coordenar os participantes, administrar a confidencialidade, conduzir as negociações, organizar a due diligence, estruturar um processo competitivo e antecipar situações capazes de comprometer valor.
Grande parte das decisões que influenciam o resultado econômico de uma transação é tomada antes da assinatura dos contratos. Uma empresa leva anos − muitas vezes décadas − para ser construída. Sua venda, porém, costuma ser definida em poucos meses. O maior risco de negociar por conta própria não é vender a empresa por um preço menor. É transferir valor para a outra parte sem perceber que isso está acontecendo.
Em M&A, o sucesso de uma transação não depende apenas da qualidade da empresa. Depende também da qualidade com que o processo é conduzido.
João Roberto Mesquita é sócio da Via Mandatto Assessoria Empresarial, assessorando empresários e investidores em estratégias de crescimento ou desinvestimento, fusões e aquisições (M&A), finanças corporativas, governança corporativa, alianças estratégicas, captação de recursos e reestruturações societárias. Conselheiro de Administração (CCA) certificado pelo IBGC - Instituto Brasileiro de Governança Corporativa.
joao.mesquita@viamandatto.com | www.viamandatto.com
João Roberto Fernandes Vieira Mesquita