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COMO EMPRESAS ADQUIREM CAPACIDADE DE SE TORNAR BONS COMPRADORES ESTRATÉGICOS

Em qualquer ciclo econômico, organizações com acesso a capital, disciplina financeira e capacidade de execução conseguem acelerar seu crescimento por meio de aquisições estratégicas. Enquanto muitas empresas permanecem limitadas ao crescimento orgânico, compradores preparados conseguem capturar oportunidades que dificilmente voltarão a surgir nas mesmas condições.

O momento atual adiciona um componente estratégico a essa discussão. Empresas familiares enfrentam processos sucessórios, diversos setores aceleram movimentos de consolidação, investidores financeiros iniciam novos ciclos de desinvestimento e a reforma tributária tende a favorecer organizações com maior escala e eficiência operacional. Nesse ambiente, empresas preparadas podem encontrar oportunidades que dificilmente permanecerão disponíveis por muito tempo.

Preço continua sendo um elemento central em qualquer negociação, mas raramente é o único fator determinante para o sucesso de uma transação. Estrutura de pagamento, alocação de riscos, governança e capacidade de execução costumam ser igualmente decisivos para viabilizar um negócio.

 

Crescimento inorgânico é uma competência estratégica

Aquisições permitem antecipar anos de crescimento orgânico. Mais do que expandir receita ou participação de mercado, possibilitam incorporar talentos, tecnologias, clientes, canais de distribuição, ativos estratégicos e novas competências. Por isso, empresas que se destacam ao longo do tempo desenvolvem uma capacidade permanente de identificar, avaliar, negociar e integrar e capturar valor das empresas adquiridas.

Essa competência dificilmente é construída de forma improvisada. Ela resulta da combinação entre conhecimento do mercado, relacionamento contínuo com potenciais empresas-alvo, disciplina na avaliação de oportunidades e experiência na condução de negociações complexas. Em M&A, assim como em qualquer outra disciplina, a repetição qualificada do processo tende a produzir decisões cada vez melhores.

Empresas que realizam aquisições de forma recorrente não tratam M&A como um projeto eventual. Desenvolvem processos, critérios de investimento, governança, relacionamento com o mercado e equipes capazes de identificar oportunidades continuamente. A aquisição deixa de ser um evento e passa a fazer parte da estratégia permanente de crescimento.

Essa preparação também se reflete na capacidade de integração pós-aquisição. O valor de uma transação não é criado na assinatura do contrato, mas capturado na integração das operações. Empresas com cultura organizacional sólida, liderança preparada e equipes dedicadas à integração conseguem acelerar a captura de sinergias, preservar talentos-chave e transformar aquisições em geração efetiva de valor.

A capacidade de integração é parte inseparável dessa competência. O sucesso de uma aquisição não termina no fechamento da transação (closing), mas começa a ser testado a partir desse momento. Empresas que desenvolvem uma cultura organizacional forte, equipes preparadas e processos estruturados de integração conseguem capturar sinergias com maior rapidez, preservar talentos-chave e transformar aquisições em efetiva geração de valor.

Nem toda aquisição significa comprar uma empresa inteira

As estratégias de crescimento inorgânico podem assumir diferentes formatos. A aquisição do controle societário continua sendo a alternativa mais conhecida, mas participações minoritárias estratégicas, joint ventures e aquisições seletivas de ativos também podem representar soluções eficientes, dependendo dos objetivos do comprador.

Em muitos casos, o ativo de maior valor nem sequer é a empresa como um todo, mas determinados elementos específicos do negócio, como tecnologia, propriedade intelectual, carteira de clientes, marcas, licenças, contratos ou equipes altamente qualificadas. A aquisição seletiva desses ativos pode acelerar significativamente a execução da estratégia empresarial.

Estruturar bem a transação é tão importante quanto identificar a oportunidade

Da mesma forma, o financiamento da aquisição deve ser estruturado conforme as características da operação. Recursos próprios, captação de dívida, emissão de ações ou mecanismos de pagamento diferido, como earn-out, são instrumentos amplamente utilizados e frequentemente combinados para equilibrar liquidez, compartilhamento de riscos e alinhamento de interesses entre comprador e vendedor.

Outro aspecto frequentemente negligenciado é que as melhores oportunidades nem sempre surgem em processos competitivos. Muitas das transações de maior sucesso são resultado de anos de aproximação, construção de credibilidade e relacionamento com potenciais empresas-alvo. Originação de oportunidades é uma competência estratégica tão importante quanto negociação ou valuation.

Quando um ativo de qualidade chega ao mercado, normalmente há pouco tempo para reação. Os compradores mais bem-sucedidos já possuem estratégia definida, capacidade financeira organizada, critérios claros de investimento e uma estrutura preparada para conduzir rapidamente a avaliação e a negociação. Em M&A, preparação costuma ser uma vantagem competitiva decisiva.

As melhores oportunidades costumam surgir quando poucos estão preparados

Períodos de maior incerteza econômica frequentemente ampliam o número de ativos disponíveis em condições especiais (distressed), criando oportunidades relevantes para organizações preparadas. Empresas com liquidez, planejamento e capacidade de execução costumam capturar valor justamente quando o mercado opera sob maior pressão.

Enquanto muitas organizações aguardam o momento considerado ideal para iniciar uma estratégia de aquisições, seus concorrentes ampliam participação de mercado, incorporam talentos, fortalecem capacidades tecnológicas e consolidam posições competitivas. Em muitos casos, o maior custo não está em realizar uma aquisição, mas em deixar de realizá-la.

Construir uma estratégia consistente de aquisições começa muito antes da assinatura de um contrato. Exige planejamento, critérios claros de investimento, capacidade financeira, processos estruturados, relacionamento permanente com o mercado e uma organização preparada para identificar, avaliar, negociar e integrar oportunidades.

As empresas que iniciam essa preparação antes de precisar dela são, normalmente, aquelas que conseguem executar as melhores aquisições. Afinal, a pergunta mais importante talvez não seja quando surgirá a próxima oportunidade de compra. A pergunta é: sua empresa estará preparada quando ela surgir?

João Roberto Mesquita é sócio da Via Mandatto Assessoria Empresarial, assessorando empresários e investidores em estratégias de crescimento ou desinvestimento, fusões e aquisições (M&A), finanças corporativas, governança corporativa, alianças estratégicas, captação de recursos e reestruturações societárias. Conselheiro de Administração (CCA) certificado pelo IBGC - Instituto Brasileiro de Governança Corporativa.

A Via Mandatto apoia empresas na construção de uma estratégia permanente de crescimento inorgânico e desenvolvimento de uma capacidade permanente de crescimento por aquisições, desde a definição da tese de aquisição até a originação, negociação e integração de empresas-alvo.

joao.mesquita@viamandatto.com | www.viamandatto.com

João Roberto Fernandes Vieira Mesquita

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